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Utopias de Maio e de Abril

 

Na sessão comemorativa na Câmara de Faro, dos 34 anos do 25 de Abril de 74, Vítor Ruivo, em representação do Bloco de Esquerda local, evocou as "utopias" de Maio de 68 em França, em paralelo com as "utopias" do 25 de Abril português.

 

UTOPIAS DE MAIO E DE ABRIL

 

Porque, para renovar Abril, se precisa, com carácter de urgência, de um forte sopro de jovem rebeldia, nos 34 anos do 25 de Abril de 74, invoco os 40 anos de Maio de 68.

Porque, no grande pântano do bloco central europeu, hoje se odeiam e renegam as utopias de Maio com a mesma arrogância com que em Portugal se destróiem as conquistas de Abril, peço permissão ao Bloco de Esquerda e invoco os Dias Utópicos, para comemorar o Dia da Liberdade.

Maio precursor de Abril.

Apertados no mesmo sistema, romperam regimes diferentes através duma raíz comum.

Maio de 68, na burguesa França democrática, Abril de 74, no ditador fascismo português, ambos nasceram no fermento do repúdio anti-colonial. 

Lá, nos protestos contra a guerra na Argélia, no apoio à sua independência e, nas vésperas de Maio, a gota que fez o copo transbordar – a prisão de vários estudantes numa manifestação contra a guerra do Vietname. Cá, a clandestina mas crescente rejeição da guerra de África, a emigração, a deserção, a consciência dos jovens capitães de se estarem a perder numa missão sem futuro.

O Maio da França libertária riu-se do burguês Estado Social Europeu (quando ele ainda não sabia que o era) e quis tudo, logo ali. Alcançar o céu – já! “É proibido, proibir”, “Somos realistas, queremos o impossível”... Ao fim de três meses e poucos dias, amainaram as manifestações, desfizeram-se as barricadas nas ruas de Paris, os estudantes desocuparam as escolas e universidades, 10 milhões de grevistas regressaram às aulas e às fábricas. Com o regresso à normalidade restou, sabendo a pouco, para os estudantes e professores, a reforma do funcionamento das universidades e para os operários, a aceitação dos acordos antes rejeitados pelos grevistas, de aumentos no salário mínimo nacional, nos salários em geral e da redução do horário de trabalho. 

Paradoxalmente, no entanto, o louco Maio de 68 mexera com toda a sociedade ocidental e, de braço dado com o movimento hippie americano, ou antes, no desnudado e provocador beijo na boca do “make love, not war”, no rescaldo da derrota yanqui no Vietname, impôs o movimento feminista e alcançou, quase sem dar por isso, a revolução dos costumes.

Ainda hoje, as mentes conservadoras mais reaccionárias não lhes perdoaram o descaramento. À sombra de Bush e do santo Papa, e porque a crise embora não os aperte também os assusta, o playboy Sarkozy, em nome de todos, jura “liquidar a herança de 68”.

Tendo bebido directamente dessa herança, desde as manifestações e greves estudantis de 69 até à revolta das Caldas em Março de 74, o Abril do Portugal libertado pôs um cravo no cano das espingardas e, filho do desenrasca, riu-se dos patrões, dos generais do reumático, do bispo de Braga e desatou a ocupar e a sanear a torto e a direito. Muito mais a direito do que a torto, ao contrário do que se lamentam as tais mentes reaccionárias! 

Ocupou casas para quem não as tinha ou vivia em barracas e noutras abriu creches e infantários, ocupou fábricas de patrões fugidos pró Brasil, terras abandonadas, ou mais ou menos, de agrários e de seus filhinhos bêbados por Lisboa... e uns e outros foi saneando, reconhecendo entre eles bufos e pides... é certo que às vezes errando a pontaria, e em algumas dessas vezes por motivos pouco confessáveis, mas, infelizmente, as mais das vezes, porque nem sequer quiz, ou lhe não deixaram, apontar ao alvo. 

Recordo, para os mais jovens que nasceram muito depois desse tempo, que também aqui em Faro se saneou e ocupou, desde a sede da radical e minoritária UDP, na velha casa do Coronel Fonseca, no Largo de S. Pedro, à espera de cair de podre e há anos servindo de pombal a muitos dos pombos vadios da cidade, até à sede distrital, ainda hoje no Largo do Pé da Cruz, do distinto e governamental Partido Socialista. Recordo também, apenas evocação sem comentários, a ocupação do Governo Civil, o zénite das polémicas ocupações farenses.

Deixem-me recordar ainda, das vezes em que Abril saneou com mais acerto, uma singular, tão certeira e justa – o saneamento do insubstituível Alberto João. Tenha o país dado as voltas que deu, esteja o PSD na crise em que está, nunca deixarei de prestar a minha sincera homenagem a esse acto heróico do PREC madeirense. 

O PREC da Revolução dos Cravos, embora contando mais os dias que o Maio de 68, foi também de curta duração: um ano, sete meses e um dia esgotaram-se em 25 de Novembro de 1975.

Ainda assim, muito foi feito, ou iniciado, para além do derrube do fascismo e do fim da guerra colonial – as chamadas conquistas de Abril que apesar de cada vez com maior lentidão e dificuldades se foram desenvolvendo até quase ao fim do século passado.

Hoje, instalados no novo século, sofremos com redobrada fúria a velha receita de sempre - pagarem os pobre a crise dos ricos. E assim se passa, na França de Maio como no Portugal de Abril.

Consolam-se as utopias de 68 com a resistência maior que conseguem mover contra o ataque sofrido, e porque, embora pelas linhas tortas do sistema capitalista, foram impondo as lutas feministas, a não discriminação de género, de raça ou de sexo, as tais mudanças de costumes. Que, no entanto, todos os dias são escamoteadas, absorvidas, banalizadas, manipuladas pela ”sociedade do espectáculo” na caríssima publicidade das marcas do luxo parisitário. Mas que também todos os dias, se rebelam por ínvios caminhos, desde o hip-hop e o rap afro-americano, ao Zeca jazzeado em tantos tons, aos hackers e piratas sabotadores informáticos dos falsos direitos de autor das multinacionais da comunicação, aos bloggers da Net livre e de outro mundo possível.

Mas, e Abril de 74, chegou a ter utopias? E se as teve, por onde andam elas? 

Umas teve, ali tão à mão, que só foram utopias porque nunca as agarrámos, e não sei se alguma vez, as agarremos de verdade. 

Pois não andei eu gritando, e tantos outros, com certeza alguns aqui presentes: “Morte à Pide e a quem a apoiar!”? E o poder democrático o que nos deu, foi o quase esquecimento, sem justiça, nem jugamento, antes a boa vida para bufos e pides, muitos agraciados até com as pensões da lei na velha máxima salazarenta dos “bons serviços prestados à Nação”.

Pois não andei eu gritando, e tantos outros, com certeza alguns aqui presentes: “Casas sim, barracas não!”? E o poder democrático, sobretudo o local, que fez, é certo, um esforço grande de construção, substituindo barracas por bairros sociais, mas tão enredado nas teias da especulação imobiliária, com os governos centrais tão avessos a apoiar as novas periferias de novos imigrantes que o problema se mantém, multiplicado pelo gigantísmo das áreas metropolitanas. E o governo actual, cereja no bolo da desigualdade social, que ao lançar o programa Porta 65 de apoio ao arrendamento jovem deixa a porta tão cerrada que ninguém a conseguiria abrir, não fora a luta dos movimentos entretanto criados por jovens pela habitação.

Mas, e utopias doidas, daquelas de olhar lá para bem longe, também as houve no Abril de 74? 

Julgo que sim, se recordarmos, por exemplo, o grito de guerra de tantos jovens esquerdistas de então: “Os ricos que paguem a crise – já!”. Que “já” tão ridículo nessa altura e hoje ainda mais. Mas que “já” tão necessário nessa altura e hoje ainda mais.

Pergunto a qualquer um de vocês, que se dispa de ideologias e de clubismos e se encha de sensatez, se não ficais de cabelos em pé com os lucros escandalosos, fabulosos, despuduradamente anunciados pela Banca, ano após ano. Neste país da crise perpétua, para os senhores da Banca e dos grandes grupos financeiros, quanto mais lucros mais crise e quanto mais crise mais lucros. Mas para o actual governo o previligiado sou eu, funcionário público pelintra, que ganho 850 euros. E é contra mim que ele vira a jovem caixa do supermercado ou o jovem informático criativo, porque se eles se pudessem aposentar agora, iriam receber uma pensão menor do que eu teria recebido se me pudesse ter aposentado há cinco anos atrás. E num passo de ilusionismo, rouba-me a mim e a eles, mais uma vez, no cálculo da pensão. E contra mim os vira, novamente, porque ainda sou efectivo e, velho do restelo, quero continuar a sê-lo até me aposentar. Enquanto eles, ainda que licenciados, vivem a vida a recibo verde. E noutro passe de mágica, aos três nos embrulha no novo Código de Trabalho para que os senhores do dinheiro não tenham tanta maçada a fazer os seus lucros e lhes seja ainda mais fácil nos despedir a todos. A mim, já. Aos jovens, se a eles alguma vez lhes passar pela cabeça a ideia louca de ter um emprego fixo.

Mas aos amigos do peito e, já agora, também aos da alternância, garante que isso não é problema. Não precisam de emprego fixo porque o tacho é permanente!

Por isso, é que eu só recupero a paz de espírito recordando uma, só mais uma, das velhas utopias de Abril: “Nem Nato, nem Pacto de Varsóvia, independência nacional!”. 

Nato? Deve ser o prato de lentilhas do Paulo Portas. Varsóvia? Não conheço, não me foi apresentada. Independência nacional, sim! É quando o Cristiano Ronaldo ao serviço do Manchester enfia um balázio nas redes do Milão. E viva Portugal!

Utopias para quê se é isto o mundo de hoje!

Ó engenheiro Sócrates, quem te pode assim levar a mal teres ante-ontem espezinhado mais uma das sacrosantas promessas eleitorais, ratificando apenas no Parlamento aquilo que juraras a pés juntos precisar de um Referendo nacional. E depois o tratado é nosso, o Tratado de Lisboa! Para quê gastar dinheiro num referendo com uma coisa que fomos nós a decidir? Ou não? Eu cá não sei, não vem na Caras. Tá de caras!!!

Deixem-me, ao menos, ficar com as minhas utopias! 

Faro, 25 de Abril de 2008

O representante do Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Faro