Share |

Abril Negado e Sempre Renovado

 

Intervenção de Vítor Ruivo, deputado do BE na Assembleia Municipal de Faro, na Sessão Solene comemorativa do 33º aniversário da Revolução de Abril.

 

Comemora-se a data de 25 de Abril de 1974, negando Abril. 

Mesmo muitos dos que viveram e recordam o espírito do Abril popular fazem-no agora mais como romagem de saudade aos belos tempos do PREC, do que pela afirmação concreta e convicta, nos dias de hoje, da luta pelos sonhos de então.

E como é difícil não ser assim!

No discurso oficial repetem-se as bonitas e velhas palavras gastas para esconder as feias acções do presente. Ou, pior ainda, exaltam-se as malvadezas do poder dominante como o único modo, as medidas necessárias, inevitáveis, para prosseguir o caminho inicial.

Por uma semana, retira-se o Zeca da estante, rebobinam-se as imagens do costume, promovem-se uns espectáculos a condizer, atiram-se foguetes, canta-se a Grândola… 

Faz-se de conta, para que o povo continue a pagar a conta!...

E está pagando com língua de palmo! Nos desejos terroristas dos chefes das associações patronais que, seguindo o exemplo de Sócrates na Função Pública, anunciam que o problema da fraca competitividade das empresas é estarem cheias de inúteis que é preciso limpar. Senhores que batem palmas à deslocalização da Opel de Palmela ou da Rodhes de Santa Maria da Feira. E que, seguindo o conselho de Vítor Constâncio, se lamentam dos salários ainda demasiado altos dos trabalhadores. Como diz o Belmiro filantropo: com tantas dificuldades, negociar em Portugal já não dá nada.

Para que o país ainda dê mais qualquer coisinha a estes pobres necessitados, aperta-se a tarracha aos privilégios dos funcionários públicos. E com o dinheirinho que sobra o ministro da saúde assegura aos beneméritos dos Melos e da Caixa Geral de Depósitos que as parcerias público-privadas em novos hospitais são negócio garantido. Tão garantido que até as coronárias do Eusébio têm andado estes dias a fazer publicidade grátis ao último grito dos hospitais da moda na capital. 

Mais papista do que o papa, a ARS do Algarve acelera o encerramento dos SAPs e dos internamentos dos Centros de Saúde para que, também na região, nada falte à dedicação à causa da medicina privada.

A maioria das vereações do distrito, incluindo a farense, não quer ficar atrás e faz o que pode para satisfazer os desejos da FAGAR e das Águas do Algarve que a todo o custo querem nivelar por cima o preço da água através de aumentos exorbitantes. 

E aqui em Faro, uma recente decisão da Assembleia Municipal mostra bem a coerência e os princípios que nos governam ao fazer a entrega do velho Estádio de S. Luís à ganância da especulação imobiliária que assim renova a esperança de ver acontecer o mesmo ao Hospital e aos seus terrenos tão apetecidos. 

Mas, apesar deles e contra eles, à margem do discurso oficial, no íntimo protesto anónimo, no grito colectivo da rua, ora cansado e frouxo, ora vivaz e juvenil, Abril não morre e renova-se em cada luta cidadã.

Renova-se na vitória do Sim no referendo do Aborto e nos esforços para que lei e a sua prática não subvertam o sentido do voto.

Renova-se na exigência de que os lucros do mercado não apaguem a memória do que foi o fascismo e a resistência à ditadura, nem que a estupidez de um concurso pimba reedite a nossa história a seu belo prazer.

Renova-se nos actos simples da Associação 25 de Abril, dos seus apoiantes e de tantos outros que nas comemorações do poder local procuram meter um prego na engrenagem de Novembro para que não apague por completo Abril…Renova-se no humor cáustico mas solidário dos Gato Fodorento. No descontentamento popular contras as linhas de alta tensão. Nos protestos da Associação Artigo 35 e dos moradores dos bairros degradados por uma habitação condigna. Nas lutas dos imigrantes pela legalização total, dos intermitentes dos espectáculos e dos jovens precários dos call-centers por um futuro um pouco mais seguro.

Renova-se, aqui ao pé da porta, no protesto dos 100 trabalhadores da Direcção Regional de Agricultura e Pescas que querem ser pessoas e não apenas números e que recusam ser mobilizados para o despedimento sem justa causa.

Renova-se enfim, no mês de Maio que há 33 anos fez do golpe uma revolução e que na Greve Geral de dia 30 trará à rua a esperança do mundo do trabalho para que Abril rasgue um sorriso e os cravos se incendeiem...

AnexoTamanho
abrilfaro.pdf19.82 KB