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O dia em que o povo se juntou na rua e desabafou

A tarde de 12 de Março de 2011 foi um momento mágico para os milhares de cidadãos de Faro e de muitos outros pontos do Algarve que se juntaram no Largo de S. Francisco e depois desfilaram pelas ruas da baixa da cidade.

Aos mais velhos lembrou o entusiasmo e a liberdade do 25 de Abril de 74. A outros lembrou os dias de solidariedade com Timor. Para todos, para as várias gerações à rasca dos dias de hoje, foi a altura de deitar para fora o que lhes vai na alma.

Antes e depois do desfile, foi curto o tempo para tantos testemunhos de jovens e de idosos, de filhos e pais, que perderam o medo e a vergonha e partilharam a raiva e os desejos numa emoção colectiva.

Uma razão pesada e angustiante, soltando-se em todas as falas: o trabalho precário e o desemprego. A incerteza do tempo presente sem futuro capaz à vista. Não em frases feitas já tão gastas, mas nas palavras vivas do estudante universitário incomodado pelo descanso dos pais cada vez mais adiado; da jovem contratada despedida há dois meses da Câmara de Faro; da mãe revoltada pela filha ausente num call-center de Lisboa a ganhar menos de 500 euros; do senhor de 80 anos que leu o poema da luta por um futuro melhor; do balconista poeta que desejou Abril de novo…

Todos diferentes mas todos iguais, clamando que já chega de sacrifícios vãos e de mentiras mil vezes repetidas.

Na marcha pelas ruas da cidade, passo rápido de quem tem pressa na mudança, as palavras gritadas para todos os gostos, do sério à brincadeira, das vozes de muitos, à piada de uns poucos: “Deixa passar, deixa passar – estamos na rua pr’á nossa vida mudar!”, “Queimar uma geração, não é solução!”, “Trabalho não acho, dêem-me um tacho!”, “Nem só mais um – trabalhador precário!”, “O que é que é feio? – ficar no passeio!”, “E o que é foleiro? – ficar no poleiro!”…

Tantas vozes gritando juntas pela primeira vez nas ruas, tão surpresas de se verem tantas e tão animadas, que o velho e desacreditado grito de o-povo-unido-jamais-será-vencido, pareceu outro e capaz de ser verdade.

Hoje, passado quase um mês e depois da entrega na Assembleia da República dos largos milhares de folhas A4 erguidas naquele dia, só por si contendo, se respeitadas, a mudança necessária, em todos ficou na boca um sabor a pouco. Por isso, aumentaram ainda mais as ligações na Net e novos manifestantes se juntaram aos que vão a todas, no protesto contra as portagens e na manifestação dos sindicatos a 19.

Por isso, a absurda continuação dos cortes nos salários e nas pensões, do aumento do desemprego e da precariedade, vão obrigar todo o país à rasca a novos protestos, já não apenas a dizer o que não quer, mas a lutar também pelas políticas de que precisa.

E nas próximas eleições, já tão perto que talvez dê para o dia 12 não ficar esquecido, se as gerações à rasca sentirem o mesmo impulso desse dia, não ficarão em casa, nem irão para a praia, e os políticos foleiros que há mais de 30 anos se têm revezado nos poleiros, sentirão eles, ao menos um pouco mais do que é costume, o que é ficar à rasca.