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Sessão Solene comemorativa do 25 de Abril - 2022 Discurso do Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Faro

Sessão Solene comemorativa do 25 de Abril - 2022 Discurso do Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Faro

 

Ex.mo Senhor Presidente da Mesa da Assembleia Municipal, Ex.mo Senhor Presidente da Câmara Municipal, Ex.mas e Ex.mos Senhoras Vereadoras e Senhores Vereadores, Ex.mos Membros da Assembleia Municipal, Ex.ma Senhora e Ex.mos Senhores Presidentes de Junta, Ex.mas e Ex.mos Representantes das Autoridades e Entidades Oficiais, Ex.mas e Ex.mos convidadas/os, Caras e caros Cidadãs e Cidadãos, É com muita alegria que aqui estou nesta cerimónia comemorativa de um acontecimento tão marcante na vida de todos nós e na minha, em particular, que tive a oportunidade de o viver. A revolução de 25 de Abril iniciou um processo que nos deu a liberdade para construirmos uma sociedade mais justa. E o povo saiu à rua em alegria e lembro-me de algumas das reivindicações da altura, das quais saliento, para aqui referir, a luta pelo “Pão, Paz e Liberdade”. Escolhi estas palavras de ordem pois refletem alguns dos principais progressos do pós-25 de Abril, mas que julgo estarem em perigo e necessitam da nossa atenção. Estou consciente de que, na vida social, nenhuma construção está garantida e que necessita sempre de uma atenção constante, mas estes são alguns dos temas da minha preocupação atual. A liberdade, um dos primeiros objetivos a ser concretizado, foi formalizada na Constituição de 1976. Apesar de nada ser perfeito e de nem todos os seus objetivos, como a regionalização, estarem concretizados; temos um sistema de democracia representativa para organizar a nossa vida política e um conjunto de normas que nos permitem exprimir e atuar livremente. Mas nos tempos que correm, pelo mundo fora e, também em Portugal, assiste-se a uma crescente polarização social com o avanço de correntes populistas que, confundindo osindivíduos com o todo procuram fomentar ódios raciais. E não são apenas ódios raciais, com a mesma demagogia criam grupos de inimigos (os políticos…, as pessoas bem instaladas, os intelectuais, os homossexuais, etc.). Tudo lhes serve como alvos contra os quais atiçam ódios e pretendem mobilizar os votos. Estes movimentos não respeitam os outros e desprezam as regras democráticas. Alimentam-se dos ódios que criam e da insatisfação das populações pela não resolução dos seus problemas. As propostas que apresentam são um perigo para as liberdades que alcançámos. A Paz, foi outra das conquistas alcançadas. Nascido da necessidade de pôr termo à guerra colonial, com o 25 de Abril iniciou-se um processo de descolonização, atribulado e suscetível de críticas, mas só assim foi possível construímos uma sociedade livre e em paz, em Portugal. Acabou-se o serviço militar obrigatório e o nosso exército passou a ser reconhecido pela sua ação nas ações de paz em que participa. Mas os tempos que correm não são favoráveis. As tenções entre as várias potências imperialistas têm vindo a agudizarse. O que ultimamente era uma guerra económica tem passado a ser uma guerra pelo controlo de territórios estratégicos, como a recente invasão da Ucrânia nos mostra. Além das lutas pelas matérias primas, o controle das fontes de metais raros necessários para as novas tecnologias passou a ser um importante objetivo estratégico. A corrida aos armamentos, cada vez mais sofisticados, intensificase a um ritmo acelerado. Fontes de conflitos não faltam e o futuro não se apresenta risonho. O Pão, foi outra das nossas conquistas de abril. Apesar de não termos erradicado completamente a miséria, a situação atual é incomparavelmente melhor que a existente em 1974. A liberdade sindical permitiu a luta por melhores salários, atribuiu-se reforma a quem não a possuía, construiu-se um serviço social capaz de resolver as situações de maior carência, etc.. Os recentes aumentos do salário mínimo, apesar de muito insuficientes, são alguns passos necessários para garantir que quem trabalha não vive na miséria e não passa fome. Mas a distribuição da riqueza produzida é cada vez mais desigual e temse agravado com as recentes crises. As poucas melhorias dos salarios mais baixos escondem a crescente acumulação de riqueza nas camadas mais ricas e o empobrecimento da chamada classe média que, além do mais, vive afastada dos apoios sociais. Um fenómeno velho e preocupante nos tempos de 74, mas praticamente esquecido nos últimos anos, surge agora com bastante acuidade: a crescente inflação. Com a saída da pandemia e com a guerra da Ucrânia, os preços dos variados produtos têm subido a uma velocidade assustadora. Para além dos aumentos dos combustíveis que todos verificamos, devemos ter em atenção que, no último mês, o cabaz alimentar subiu 10%, isto para não falar de outros produtos como os materiais de construção. A inflação não é sentida com a mesma intensidade pelas várias camadas da população e são os mais pobres aqueles que mais sofrem com ela. Ligada à inflação, está a luta constante entre o capital e o trabalho, pela repartição da riqueza produzida. O combate à inflação deve ser feito pelo controle de lucros excessivos e pela garantia da reposição do poder de compra das populações. Não me refiro apenas aos mais desfavorecidos a quem o governo se prepara para dar esmolas, refiro-me a todos os salários e pensões que devem acompanhar o aumento do custo de vida. Se não tomarmos medidas neste sentido, continuamos a empobrecer uma parte importante da nossa população e a criar um campo fértil ao crescimento de correntes antidemocráticas e a pôr em perigo a liberdade conquistada em abril. Não queria falar de abril de 74 sem falar de um problema então ignorado, a crise ambiental e climática. Embora já houvesse quem alertasse para a degradação do ambiente provocada pela atividade humana, só posteriormente se tornou claro que era o próprio clima que estávamos a alterar. Nos nossos tempos, o combate às alterações climáticas será o novo 25 de Abril. Do sucesso desta luta dependerá o futuro do Pão, da Paz e da Liberdade. Se não a vencermos, teremos lutas pelo acesso à água e aos alimentos. E todos sabemos e vemos que, onde há guerra não há liberdade. Caras e caros concidadãos, O 25 de Abril de 1974, que hoje comemoramos, foi uma fonte de alegria e de esperança. Muitas das promessas de Abril foram concretizadas e outras ainda estarão por cumprir. Mas mesmo aquelas que julgamos adquiridas estão em risco. Saibamos ser herdeiros dessa esperança e defender os seus ideiais. Termino com uma frase de uma música desse ano de 1974, “A liberdade” do disco “À queima-roupa”de Sérgio Godinho. “Só há liberdade a sério quando houver A paz, o pão, Habitação, Saúde, educação Só há liberdade a sério quando houver …” E estes outros temas também são merecedores da nossa atenção. Viva o 25 de Abril Faro, 25 de abril de 2022 João Brandão, membro da Assembleia Municipal de Faro, em substituição de Célia Gonçalves.