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Solidariedade ou caridade?

 

Desde há muito a pobreza no mundo, assim como em Portugal, é motivo de abundantes relatórios. De muitas receitas, de multiplas acções. Nos últimos anos, todos esses relatórios assinalam um preocupante aumento da pobreza no nosso país.

 

Entre tantos outros, para só citar alguns mais recentes, dizia a Associação CAIS, em Março de 2005: “Portugal tem 2 milhões de pobres e o número pode aumentar”. “Porquê há muitos anos é este número sempre o mesmo?”, perguntava o então presidente Jorge Sampaio.

 

Ainda em 2005, Outubro, dizia a OIKOS: “Portugal é de longe o país da UE com maior desigualdade entre ricos e pobres. Um quinto dos portugueses vive abaixo do limiar de pobreza”.

 

Também em Outubro mas de 2007, a presidente da Federação dos Bancos Alimentares contra a Fome garantia: “Há hoje mais pessoas a pedir ajuda alimentar do que em anos anteriores”. Por isso aumentaram também as instituições a pedir o apoio dos bancos alimentares. “O número de pobres tem engrossado com os “novos pobres”, pessoas que têm emprego e recebem salário, mas cujo rendimento não dá para satisfazer as necessidades da família”.

 

Logo no início desse mês, desassombradamente, o presidente em Portugal da Rede Europeia Anti-Pobreza afirmara: “A solução para o problema dos dois milhões de pobres portugueses não pode ser decidida apenas pelos deputados, é preciso que os pobres digam o que pensam, qual a avaliação que fazem das políticas do governo e quais as suas propostas para melhorar a situação”. “É preciso que deixemos de viver num paternalismo bacoco e assistencialista que só prejudica as pessoas”.

 

Acrescentavam as estatísticas do INE que, sem as pensões de reforma e as transferências sociais do Estado, mais de quatro milhões de portugueses estariam em risco de pobreza.

 

Em Fevereiro deste ano, a propósito de um relatório apresentado pela Comissão Europeia indicando que, relativamente à pobreza das crianças, Portugal está em penúltimo lugar e é apenas ultrapassado pela Polónia, a presidente da Federação dos Bancos Alimentares considerou que o número de crianças afectadas pela pobreza tem vindo a aumentar nos últimos anos devido ao agravamento das condições de vida de muitas famílias, sobretudo das famílias desestruturadas e monoparentais."Nós temos vindo a alertar para este fenómeno, que está provado por dados estatísticos e estudos".

 

Já em Abril, novo estudo do INE resultante dos seus inquéritos quinquenais aos rendimentos das famílias portuguesas concluia que nos últimos dez anos considerados (1996-2006) se acentuou o fosso entre as famílias mais ricas e as mais pobres. Um artigo publicado agora em Maio, no sítio da Net da Diocese do Algarve, e que aborda aquele estudo do INE adianta: “Tal fosso, aliás, não só se acentuou, como podemos mesmo dizer que DUPLICOU! (...)”

 

Há cerca de quinze dias, o presidente do secretariado da União das Misericórdias Portuguesas sustentou: “Todas as instituições de solidariedade social estão a confrontar-se com um aumento de procura generalizada, o que nos permite ver que há alguma coisa do ponto de vista social que merece um olhar muito atento, mas nenhum Governo de partido algum consegue resolver este problema sozinho, tem que dialogar de forma séria, aberta e leal com as instituições que existem no terreno para em conjunto encontrarem soluções”. “Até estou convencido de que há mais pobres, porque há muita pobreza envergonhada, mas não podemos analisar a pobreza de uma forma alarmista”.

 

Sem alarmismos, procuro uma conclusão – as instituições particulares de apoio aumentam em número e em esforço, aumentam os voluntários e as dádivas, até pode, e deve, aumentar a cooperação entre o Governo e as instituições... mas a pobreza também aumenta. Porquê?

 

Subtil mas gradualmente chama-se hoje solidariedade à velha caridade de outros tempos. E, à mudança da palavra corresponde, inteira, a mudança de conteúdo – à medida que tem crescido a caridade, a solidariedade diminui! Não contesto: vale a pena a caridade! Ficam mais felizes os que a praticam, mais consolados os que a recebem. Mas a pobreza aumenta...

 

Leitor, estou abusando e muito, já ultrapassei os 4000 caracteres. Se queres ir um pouco mais além na solução, modéstia à parte, sê paciente e lê outra vez este artigo.