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Hoje senti-me um ficheiro de excel

Interpelado por uma professora desempregada naquele programa infeliz que a RTP pôs no ar para branquear a imagem do primeiro-ministro, Passos Coelho respondia à interlocutora: "pois a senhora ficou sem trabalho, mas no seu lugar há-de estar agora alguém". A resposta lacónica do governante revela a sua enorme insensibilidade social, o desapego e a profunda falta de empatia que nutre para com o Outro (e não quero dizer aqui "para com o Próximo"). Pedro Passos Coelho disse o que todos os empregadores e potenciais empregadores pensam (mas não o admitem por decoro), isto é, " há milhares de cães a um osso" ou, dito ainda de outra maneira, se um de vós se recusa a aceitar um emprego, outro fá-lo-á sejam quais forem as condições oferecidas.

E assim, sendo nós muitos, se baixa o valor da mão-de-obra, assim se desvalorizam as qualificações, assim se instiga à fuga para o estrangeiro, assim se instala a resignação e o medo.

Sim, é de medo que se trata quando partindo da necessidade dos desempregados se lhes propõe que se juntem aos 20 ou mesmo aos 30, numa sala do IEFP, pedindo-lhes que escolham cursos a frequentar enquanto recebem o subsídio de desemprego. Sem que lhes sejam enunciados os objectivos de tais cursos, sem que aqueles sejam informados das premissas por detrás do desenho dos mesmos, sem que sequer enunciem os seus programas, digo, conteúdos temáticos a leccionar. Assim, tentam fazer-nos crer que escolhemos entre estudar alemão ou tecnologias da informação.

Na sala todos alinham em fingir que escolhem e todos fingem ignorar a ameaça latente: a de que – escolhendo não escolher nenhum – o seu subsídio será cortado. 

E dá-se a coincidência de todos optarem pelo curso de alemão. Porquê? Porque começa mais tarde, termina mais cedo e conclui-se mais rápido. Motivações passíveis de apresentar para recusar uma e outra proposta? Bom...”vamos ponderar” e se os argumentos forem aceites chamamos para outro. Outro curso. Abrimos os ficheiros dos subsidiários e emitimos nova convocatória. Marcamos outra reunião e preenchemos novas fichas: dez para o curso de jardinagem, doze ou treze para o de técnicas administrativas.

Nós, os desempregados, fingiremos que escolhemos, eles fingirão que estão a enriquecer as pessoas, a contribuir para a melhoria dos seus percursos e carreiras, fingirão que estão a investir na melhoria das suas competências, a apostar na qualificação ideal para os desafios do mercado de trabalho, fingirão que estão a apostar na sua qualificação e no aumento da sua auto-estima.

(Perpassa a ideia de que julgam que muita gente muito desocupada e com muito tempo livre constitui um perigo e uma ameaça. Demasiado ócio põe em perigo qualquer “status quo”, mas pode ser só impressão minha).

Como se os que ali estão não soubessem que trinta e oito por cento dos jovens portugueses abandona os estudos por falta de meios para a sua prossecução. Como se os que ali estão não soubessem que este Governo aumenta as propinas, diminui drasticamente a atribuição de bolsas de doutoramento e pós doutoramento, reduz os apoios de acção social escolar ou propõe diminuir a escolaridade mínima obrigatória.

Como se os que ali estão não soubessem como este Governo tem desprezado escolas, professores e alunos e toda a educação em Portugal. Assim mesmo, como se não soubessem, fingem acreditar que o Pedro Mota Soares e o Ministério da Segurança Social estão preocupados com o seu futuro e não com a diminuição das estatísticas.

E hoje, fechada naquela sala, com mais trinta desempregados, senti-me parte ínfima de um ficheiro, uma célula de excell, uma numeral, um dado estatístico e uma cidadã descartável e, na minha tentativa de justificação, no intuito de escrever a minha objecção de consciência, Passos Coelho não me largou as orelhas sussurrando qualquer coisa como “pois se a senhora não aceitar, há-de vir outro alguém”. E de repente percebi que não era LIVRE.